O Maço e o Cinzel como ferramentas do Aprendiz
O trabalho surge na vida do Homem como um espaço de autorrealização. Mais do que uma condenação intemporal, a satisfação proveniente da execução, concretização ou sucesso numa determinada função, atividade ou concretização de um desejo, seja ele pessoal ou social, transforma a Natureza[1].
A execução de um trabalho tem duas fases: a primeira alicerça-se no pensamento e no planeamento intencional de uma tarefa. Qualquer trabalho, projeto ou objetivo de onde esta primeira fase se encontre ausente, ou está votado ao inconcluso ou, então, à um hercúleo sem sentido e talvez vão. A segunda fase é o exsecutare[2], onde o Homem efetua, cumpre ou realiza o projetado na e pela sua mente.
Na senda do dualismo, não existe trabalho, pelo menos completo, sem que a utilização conjunta de intelecto[3] e força atuem de forma complementar. Neste caso, o pensamento e o projeto surgem como forças passivas ao passo que, o trabalho, é a força ativa. Na senda do pensamento Hegeliano, a síntese resultará na realização prática de algo que irá mudar a Natureza.
Um maço é normalmente definido como um martelo de pau com duas cabeças[4]. Um maço ou martelo é utilizado desde os primórdios da civilização[5] e são utilizados nos mais variados ofícios[6], desde a cozinha, à carpintaria, à construção ou aos desportos[7]. Tem numerosas formas, tamanhos, formatos e materiais de composição. O seu manejamento baseia-se em Leis da Física: a amplificação de força[8], o efeito da massa da cabeça[9], o efeito da alça[10] e o efeito da gravidade[11]. É importante denotar-se que um maço pode igualmente ser classificado, se essa for a sua utilização[12], como uma arma contundente[13]. É mister ressalvar que foi, e ainda é, uma ferramenta cheia de simbolismo[14] em várias esferas.
Por seu turno, o cinzel é definido como um instrumento para lavrar pedras, metais, madeiras ou como instrumento de gravador[15]. Trata-se de uma ferramenta com uma borda de corte moldada como lâmina na sua extremidade, apta a esculpir ou cortar materiais duros, sendo golpeado com um martelo ou com poder mecânico[16]. A sua utilização é passível de ser reportada há milénios[17], havendo registo de que os Egípcios usavam cinzéis de cobre e de bronze para trabalhar madeira e pedra macia[18]. A sua utilização como ferramenta é essencial, por exemplo, na escultura, marcenaria, carpintaria, metalurgia e alvenaria. E, dada a sua natureza afiada, também poderá ser utilizada como arma.
Quer o maço, quer o cinzel, quando incorretamente manejados, podem causar lesões naquele que os utiliza. Existem questões de física e ergonomia que são necessárias ter em linha de conta na hora do seu manejo. A sua utilização irrascível ou irracional tem consequências que podem ser graves e nefastas. Por exemplo, força excessiva pode rasgar a pedra ou causar ferimentos na mão que maneja o cinzel ou brande o maço. E tudo isso tem um impacto, para toda a ação, há uma reação[19].
Em Loja, vemos o maço e o cinzel no Quadro de Loja e são estes os primeiros instrumentos que um Apr∴ maneja, na sua Iniciação, ao executar o seu primeiro trabalho. O maço é, pois, um símbolo do trabalho, da força bruta e da vontade que executa. Sem a vontade que o maço imprime, o cinzel seria incapaz de cumprir a sua função enquanto símbolo da disciplina e educação.
O maço e o cinzel são as ferramentas essenciais de um Apr∴. Sem elas, o trabalho sobre a pedra bruta não é realizado, ela não será aplainada e esquadrejada. Sem elas e sem uma atuação resoluta e firme, as arrestas, superficiais ou grosseiras não serão aplainadas e o polimento necessário da personalidade não se fará, com os resultados belos, subtis e delicados que seriam esperados. Trabalhar com o maço e o cinzel será doloroso e tem de o ser em muitos momentos. Mas não ao ponto de ferir sem recurso ou matar.
O uso do maço e do cinzel, com cadência e vigor, permitirão derrubar obstáculos e superar dificuldades. Cada um terá a sua própria constância e determinação, baseadas na cadência com que o maço impacta o cinzel[20]. Será, precisamente, este uso que conduz à aprendizagem das forças da natureza e ao desafio das mesmas; ao “conhece-te a ti mesmo”[21] e às tuas forças e limitações; à necessidade de apoio dos IIr ∴ e da inteligência necessária para perseverar, agir e dirigir o pensamento para o trabalho correto. E quantas pancadas serão precisas? Talvez, “setenta vezes sete”[22]…
Consultar Bibliografia e Notas.
[1] Fazemos apelo à Teoria do Caos. Sempre que alguém, baseado no seu pensamento, executa uma tarefa, a alta sensibilidade das condições iniciais leva a que, no sistema não linear, determinadas características de instabilidade influam nos fatores e, portanto, no caos determinístico ou, simplesmente, caos.
[2] O latim exsequor, -qui, que significa “seguir até ao fim”, “acompanhar à sepultura”.
[3] O famoso “Cogito Ergo Sum” ou “Je pense, donc je suis” de Descartes no seu “Discurso sobre o Método” (1637). Podemos ainda encontrar a mesma frase noutros livros seus como “Meditações sobre a Filosofia Primeira” (1641) e na obra póstuma “Em Busca da Verdade pela Luz Natural” (1647). E chamamos à liça Descartes porque este escreveu, da sua pena, uma frase importante: “Arquimedes costumava exigir apenas um ponto firme e imóvel para mudar toda a Terra; então eu também posso esperar por grandes coisas se eu conseguir encontrar apenas uma coisa, por mais leve que seja, que é certa e inabalável.” E se o nosso intelecto encontrar um fito, uma vontade, certa e inabalável? Porque as obras poderão ser importantes guias, as mesmas podem ser lidas e obtidas aqui: http://philosophyfaculty.ucsd.edu/faculty/ctolley/texts/descartes.html, consultado em 23 de outubro de 2021.
[4] Vide https://dicionario.priberam.org/ma%C3%A7o, consultado em 26 de outubro de 2021.
[5] O uso de martelos data de há, pelo menos, 3.3 milhões de anos. Vide KATE WONG, “Archaeologists take wrong turn, find world’s oldest stone tools”, cuja leitura poderá ser realizada na Scientific American, em https://blogs.scientificamerican.com/observations/archaeologists-take-wrong-turn-find-world-s-oldest-stone-tools-update/, 20 de maio de 2015, consultado em 28 de outubro de 2021.
[6] Muito interessantes também, para contexto histórico e prático, “The history of the hammer from its prehistoric beginnings”, disponível para leitura em https://langs.co.uk/blog/2017/06/30/the-history-of-the-hammer-from-its-prehistoric-beginnings/, consultado em 28 de outubro de 2021 e, também, “A beginner’s guide to hammers”, disponível para leitura em https://boingboing.net/2014/08/06/hammers.html, consultado em 29 de outubro de 2021.
[7] Nas Olimpíadas da Grécia Antiga, por exemplo, havia uma prova de arremesso de martelo, fazendo esta prova parte do Pentaclo Militar Grego de Esparta.
[8] Pela conversão de trabalho mecânico em energia cinética.
[9] A quantidade de energia que é libertada junto do alvo pelo golpe dado equivale a metade da massa da cabeça multiplicada pelo quadrado da velocidade da cabeça no momento do impacto (E = mv2/2).
[10] Além de desempenhar funções importantes para proteção do utilizador, permite maximizar a velocidade da cabeça por golpe.
[11] Ao martelar para baixo, a força da gravidade aumenta a aceleração do martelo e incrementa a energia despendida em cada golpe. O contrário também é verdade, quando se martela para cima. Daí que existam métodos de martelar assentes apenas na gravidade para aceleração do curso de descida, como é o caso do método Bate-Estacas.
[12] E foi-o em várias batalhas e guerras, sobretudo na Idade Média.
[13] Contundentes designam-se as armas que atuam pela pressão de choque e que tiram partido do momento linear causado pela sua massa ao serem brandidos contra uma pessoa ou um objeto. Quando este tipo de objeto é possuído sem que o agente justifique a sua posse a exista a sua potencialidade para ser utilizado como arma de agressão, pode o mesmo vir a ser enquadrado como parte dos elementos tipificadores do crime de detenção de arma proibida.
[14] Consta de inúmeras bandeias e heráldicas. Entra nas lendas de Thor, Sucellus e de Hércules. Em John Henry representava a força e a capacidade de resistência do homem. Juntamente com a foice, era o simbolo da URSS e, junto com uma espada, simbolizou uma corrente do Nacional Socialismo (Strasserism). Judah Maccabee era apelidado de “O Martelo”.
[15] Vide https://dicionario.priberam.org/cinzel, consultado em 01.11.2021.
[16] Definição baseada na Definição da Enciclopédia Britannica de 1911, disponível para consulta em https://en.wikisource.org/wiki/1911_Encyclop%C3%A6dia_Britannica/Chisel.
[17] Mais concretamente, há 8000 anos A.C.
[18] Vide https://www.britannica.com/technology/chisel, consultado em 1 de outubro de 2021.
[19] Fazemos apelo à Terceira Lei de Newton.
[20] No fundo, com a cadência com que a força bruta e a vontade (maço) conjugados com a disciplina e a educação (cinzel) têm um reflexo na nossa construção pessoal.
[21] De Platão, do Antigo Egipto, de Pedro Abelardo, …
[22] Referência a Mateus 18:21-22. As palavras de Jesus significam que devemos perdoar sempre. Sempre deve, pois, ser empregue o maço e o cinzel, porque sempre haverão arrestas a limar, medidas a corrigir, esquadria a ter verificada.



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