A carregar agora
×

Quando a Autoridade Esquece a Consciência

RLD.AutoridadeConsciência

Reflexão maçónica a partir de notícias contemporâneas

Há notícias que não se leem apenas com os olhos… leem-se com a consciência. Quando somos confrontados com relatos de violência praticada por quem detém autoridade pública, sobretudo contra os mais frágeis, estamos longe de estar, apenas, perante um problema jurídico ou disciplinar. Estamos perante uma questão profundamente moral, que interpela a ideia de Humanidade que afirmamos defender.

A Maçonaria ensina-nos, desde o primeiro passo, que o Homem é perfectível, mas também falível. Por isso mesmo, todo o poder (e a autoridade é uma forma elevada de poder) exige autodomínio, vigilância interior e sentido ético. Quando a força deixa de ser instrumento de proteção e passa a ser meio de humilhação, algo de essencial se perde: não apenas na vítima, mas também em quem a pratica e na comunidade que o permite.

O que mais inquieta nestes casos não é apenas a violência física, mas a desumanização. Escolher como alvo quem já vive à margem – um sem abrigo, um dependente, um estrangeiro – revela uma lógica perigosa que é a de que nem todos merecem igual Dignidade! Ora, este pensamento é incompatível com qualquer visão Humanista e absolutamente contrário ao Espírito Maçónico. Não há irmãos “menos irmãos”, nem homens “menos homens”

A Fraternidade que professamos não é abstrata nem decorativa. Ela exige reconhecimento concreto do outro como semelhante, mesmo (sobretudo) quando esse outro é incómodo, diferente ou silencioso. A Tolerância não é complacência com o erro; é recusa firme da crueldade. E a Igualdade não é um slogan: é um critério ético que se aplica, sem exceções, à ação individual e institucional.

Há também uma dimensão mais subtil, mas igualmente grave: quando a violência se transforma em espetáculo, quando é registada, partilhada ou comentada com escárnio, entramos num espaço de banalização do mal. Já não se trata de um excesso momentâneo, mas de uma perda de consciência. É aqui que a reflexão maçónica se torna particularmente necessária, pois recorda que o verdadeiro trabalho começa sempre dentro de nós.

A Liberdade, ensinou-nos a Tradição Iniciática, não é fazer tudo o que se pode, mas escolher fazer o que se deve. E essa escolha é permanente, a cada minuto, a cada dia! Não nasce de Decretos, nem se garante apenas por Leis. Constrói-se (e destrói-se) todos os dias, nos gestos visíveis e nos atos escondidos.

Como Sociedade, e como Maçons inseridos nela, somos chamados a não fechar os olhos. Não para julgar precipitadamente, mas para não normalizar. A Justiça deve sempre seguir o seu curso, com rigor e serenidade e sem condenações prévias. Mas a Consciência Coletiva não pode adormecer. Sempre que somos tolerantes para com a violação da Dignidade Humana em nome de uma ordem, abrimos uma fissura perigosa na própria ideia de Civilização.

A Pedra Bruta da Humanidade continua por talhar… e, cada ato de violência gratuita, é um golpe errado. Cada gesto de vigilância ética, de responsabilidade e de coragem moral é um avanço silencioso na construção do Templo. E esse trabalho, sempre lento, exigente e inacabado é, ontem como no hodierno, a nossa verdadeira missão.

Publicar comentário

A não perder

Não é permitido copiar esta página.