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O pavimento mosaico e a dualidade da Vida

RLD.Pavimento Mosaico Maçon

A vida raramente se apresenta ante nós em linhas retas… Entre certezas e dúvidas, sucessos e fracassos, Luz e Escuridão, cada Homem aprende – muitas vezes pela (dura) experiência – que a realidade é feita de contrastes. Na Maçonaria, esta verdade essencial encontra uma das suas expressões mais claras no Pavimento Mosaico, símbolo central do espaço ritual e metáfora profunda da nossa Condição Humana.

Mais do que um elemento visual, o pavimento mosaico aparenta, pelo menos, representar a dualidade inerente à existência. Ao caminhar sobre ele, um Maçon é constantemente relembrado de que, viver, é aprender a equilibrar opostos, sem negar nenhum deles. O pavimento mosaico, composto por quadrados brancos e pretos dispostos de forma alternada, encontra-se tradicionalmente no centro da Loja. A sua função não é ornamental, mas pedagógica, recordando-nos, de forma silenciosa, que o mundo manifestado é governado por forças opostas e complementares.

Desde a Antiguidade, a Filosofia reconhece esta tensão constitutiva da realidade. É por isso que, em Platão, encontramos a oposição entre o mundo sensível e o mundo das ideias. Na tradição moderna, autores como Carl Jung falam da necessidade de integrar a sombra para alcançar a totalidade psíquica. A Maçonaria, através do pavimento mosaico, traduz estas intuições numa linguagem simbólica acessível e transformadora.

Ora, o pavimento mosaico não propõe a vitória de um lado sobre o outro. Ele ensina-nos que, a Luz, só é reconhecida porque existe Escuridão e que, essa mesma Escuridão, quando compreendida, deixa de ser ameaça. Esta visão afasta, tanto o moralismo simplista, como o relativismo estéril, pelo que convida os Homens a uma leitura mais profunda e responsável da Vida.

Qualquer pessoa com percurso académico ou profissional consolidado reconhece esta realidade: planeamos, estruturamos, decidimos e, ainda assim, somos confrontados com os imprevistos. A vida alterna entre momentos de controlo e fases de incerteza. O pavimento mosaico simboliza precisamente esta dinâmica, lembrando que o caos não é ausência de sentido, mas parte do processo de construção.

A dualidade não se manifesta apenas no mundo exterior. Pelo contrário, habita o interior de cada indivíduo: razão e emoção, ambição e prudência, ideal e realidade. A maturidade não nasce da negação deste conflito, mas da sua integração consciente. Como sublinham diversos Maçons nos seus escritos, o verdadeiro trabalho iniciático é interior e exige coragem para enfrentar as próprias contradições. É por isso que, aceitar a dualidade, é sinal de maturidade espiritual e ética, reconhecendo-se a complexidade da vida que nos torna menos dogmáticos, mais justos nas suas decisões e mais tolerantes na relação com os outros.

Também é importante pensarmos que vivemos, atualmente, numa cultura que privilegia o imediato e o literal em detrimento da compreensão profunda. O simbolismo oferece uma linguagem alternativa, capaz de expressar verdades que escapam ao discurso racional. O pavimento mosaico convida a este tipo de pensamento, estimulando a reflexão e o autoconhecimento sempre que um Maçon se encontra no Templo. Ao olhar para o pavimento mosaico, um Maçon não observa apenas um padrão geométrico: vê refletida a sua própria vida. Cada fase, com mais ou menos Luz, torna-se ocasião de aprendizagem. O símbolo transforma-se, assim, num espelho ético e existencial. Compreender a dualidade da vida implica, assim, assumir responsabilidade pelas próprias escolhas. Note-se que, o simbolismo maçónico, não oferece respostas prontas, mas instrumentos para se pensar melhor, agir com maior consciência e viver de forma mais alinhada com a nossa própria consciência.

Um Maçon que compreendeu este símbolo que é o pavimento mosaico, tem necessariamente de reconhecer que a dualidade permite decisões mais ponderadas, menos reativas e mais justas, sendo uma poderosa ferramenta de discernimento para qualquer pessoa. E para aqueles que têm responsabilidades na sociedade, ela ensina que, a liderança ética, nasce da consciência das próprias limitações e que ninguém caminha apenas na Luz. No fundo, a humildade é condição de verdadeira autoridade. É precisamente por isso que, num tempo de ruído e superficialidade, a leitura simbólica da vida devolve profundidade e sentido à existência, ajudando os Maçons a alinhar a ação, os valores e o seus propósitos.

Num tempo marcado por discursos simplificadores e polarizações extremas, este símbolo oferece uma leitura mais madura, exigente e profundamente humana da vida, sendo que a Maçonaria continua a oferecer um caminho exigente, silencioso e transformador para todos aqueles que procuram crescer interiormente e agir com responsabilidade no exterior.

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