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O Didascalicon de Hugo de São Vitor

(E o seu contributo para a adoção e o ensino das Sete Artes Liberais)

Hugo de São Vitor ou, no original francês, Hugues de Saint-Victor, foi um filósofo, autor, teólogo e cardeal da Idade Média. Nasceu em 1096 e faleceu em 11 de fevereiro de 1141, fazendo parte da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho (C.R.S.A.)[1]. Ingressou no mosteiro de Saint-Victor, em Paris, em cerca de 1115 e, desde 1120 até à sua morte, foi o principal mestre da escola ali existente. Assumiu o priorado do mosteiro desde 1133 até à sua morte e, poucas vezes saiu do mosteiro. No seu tempo foi comparado a Santo Agostinho e era o mais famoso do teólogo antes de São Tomás de Aquino[2].

Hugo de São Vitor escreveu a importantíssima obra Didascalicon[3] no final dos anos 20 do século XII (c. 1135) e, mais tarde, João de Salisbury, em 1159, completou o seu Metalogicon. Tem 6 livros e, no fundo, é um tratado sobre o estudo das artes liberais e das Escrituras[4].

O Didascalicon é considerado como o “Guia Medieval para as Artes”, um guia que “provê orientação intelectual e prática para estudantes de várias idades e níveis de aprendizagem que acorriam em grande número para a escola aberta do recentemente fundado mosteiro de São Vitor”[5]. Além dos estudantes, muitos professores por toda a Europa passaram a usar o manual como sua referência no ensino que realizavam[6].

O Didascalicon divide e classifica, de forma sistemática, as formas de conhecimento e, aqui reside grande parte da sua importância.  Isto porque, esta obra apresentou dois aspetos altamente inovadores na época, os quais contribuíram, de forma significativa, para a posterior adoção e o ensino universitário das Sete Artes Liberais.

O primeiro desses aspetos, é a forma como a organização sistemática do tratado se realiza, apresentando o saber humano existente de forma unificada mas, não pelo prisma da teologia mas, antes, pelo prisma da filosofia[7]. Na obra, a filosofia é dividida em quatro grandes ramos, a saber:

  • Filosofia Teórica ou Speculativa: Teologia, Matemática e Física.
  • Filosofia Prática ou Activa: No ramo Privado: Ética e Moral. No ramo Público: Economia e Política.
  • Filosofia Mechanica: Lanifícios, Balística, Navegação, Agricultura, Caça e Pesca, Medicina, Tecelagem, Teatro.
  • Lógica ou Sermonialis: Lógica, Retórica e Dialética.

O segundo dos aspetos de singular importância desta obra reside no facto de, numa altura em que a evolução científica e técnica começava a ganhar forma, depois das Trevas[8], este tratado ser um dos elementos mais significativos a demonstrar a importância das “ciências profanas” e a trazer à educação a importância da integração do fenómeno técnico.

O Didascalicon é um dos principais livros que estão na base das Sete Artes Liberais e da sua implementação no ensino da Idade Média. Escrito na língua universal da altura, o Latim, O Didascalicon e a literatura similar, continha um conhecimento enciclopédico, na altura com um carácter marcadamente compendial[9], baseado numa conceção estática do conhecimento, pouco sensível às discrepâncias resultantes das fontes variadas que os enformavam e preenchiam.

No prefácio da obra, Hugo de São Vitor dá um mote, com o qual termino este trabalho. Esse mote lembra-nos que, apenas poderá cultivar as Sete Artes Liberais e os conhecimentos que dela advêm, quem souber ler. Aliás, nunca será Comp∴, aquele que não souber ler, nem que para isso, instrução tenha de ter enquanto Apr∴[10].

Passo a citar: “Existem principalmente duas coisas por meio das quais uma pessoa adquire conhecimentos, ou seja, a leitura e a meditação. Destas, a leitura detém o primeiro lugar na instrução, e dela se ocupa este livro, dando as regras do ler. São três as regras mais necessárias para a leitura: primeiro, saber o que se deve ler; segundo, em que ordem se deve ler, ou seja, o que ler antes, o que depois; terceiro, como se deve ler. Neste livro, discorre-se sobre estas três regras, uma por uma.”[11]

No hodierno, mais do que saber ler, é preciso ler e, ler, é provavelmente, uma das atividades mais importantes do mundo e na vida de cada um de nós. Ler é, MM∴ QQ∴ IIR∴, malhar!


[1] Sacer et Apostolicus Ordo Canonicorum Regularium Sancti Augustini ou Canonici Regulares Sancti Augustini. É uma Ordem de Cónegos Regrantes da Igreja Católica Apostólica Romana que surgiu como resposta às exortações urgentes realizadas no Sínodo de Latrão de 1059. Os seus mais importantes mosteiros em Portugal foram o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra e o Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Eram conhecidos como os “Cónegos Pretos” em referência à cor do seu hábito. A Ordem foi restaurada pela Igreja na década de 80 do século XX.

[2] Para saber um pouco mais sobre Hugo de São Vitor, aconselha-se a consulta da página da Wikipedia em Francês, neste link https://fr.wikipedia.org/wiki/Hugues_de_Saint-Victor, consultado em 25.04.2022.

[3] Também denominado Eruditio didascálica.

[4] Os livros V e VI constituem-se como um tratado sobre a exegese.

[5] Tradução Nossa de EDWARD GRANT, “A History of Natural Philosophy: from the Ancient World to the Nineteenth Century”, Cambridge University Press, 2006, página 109.

[6] Idem, página 109.

[7] Quando o conhecimento deixa de ser interpretado à luz da θεολογία, theología (estudo de Deus) e passa a ser olhado pelo crivo da Φιλοσοφία, filosofia (amor pela sabedoria). Eis a importância desta obra, vinda de um dos maiores teólogos do Cristianismo do seu tempo!

[8] Fazemos referência à Idade das Trevas. Para uma informação mais alargada, vide THEODOR ERNST MOMMSEN, Petrarch’s Conception of the ‘Dark Ages’ – Medieval and Renaissance Studies, Cornell University Press, 1957, página 106 e seguintes. Disponível para leitura em https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.110531/page/n115/mode/2up, consultado em 24 de fevereiro de 2022.

[9] Ou seja, têm por base a erudição, a reunião e a compilação de informações ali chegadas provenientes dos Autores Clássicos e Cristãos.

[10] Porque a própria cerimónia exige que o mesmo leia as palavras que ali lhe são apresentadas. Imagino que, muitos dos nossos Ir∴ do final do século XIX e inícios do século XX, em Portugal, tivessem de ter tido esse tipo de instrução para poderem progredir nos seus conhecimentos.

[11] HUGO DE SÃO VITOR, Didascalicon – Da arte de ler, Editora Universitária São Francisco, 2.ª Edição, 2007, página 35. Disponível online em https://archive.org/details/HugoDeSoVitorDidasccliconDaArteDeLer/page/n33/mode/2up, consultado em 21 de fevereiro de 2022. O subtítulo de arte legendi é normalmente traduzido como “a arte da leitura” mas, a maioria dos autores e estudiosos tem vindo a entender esse capítulo como “a arte de ensinar” (legere/lectio) ou, então, como a arte de se cultivar a si próprio.

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