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O Anel de Giges

A leitura de Platão jamais poderá ser realizada sem compreender que, o filósofo, têm um duplo significado, decorrente das alegorias e dos símbolos utilizados. Estas profundas camadas que contêm um significado figurativo levaram a que, em determinados períodos, ora fosse considerado um mero e sobretudo alegorista[1], ora o não fosse[2], negando-se qualquer análise simples das alegorias[3].

Uma dessas alegorias refere-se a um anel, mítico e mágico, que faculta a quem o possuir o poder de se tornar invisível ou não, consoante o anel é rodado no dedo. Eis a alegoria:

“(…) E o poder a que me refiro seria mais ou menos como o seguinte: terem a faculdade que se diz ter sido concedida ao antepassado do Lídio (Giges). Era ela um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí se fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente mais do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, de maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeita aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, dei por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim  que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder.”[4]

Na República e dentro do contexto em que esta alegoria surge, Platão considera que tanto fará colocar um anel destes no dedo de um homem justo ou de um homem injusto. A verdade é que não se encontraria ninguém suficientemente capaz para permanecer fiel à justiça e resistir à tentação de se apoderar dos bens e dos benefícios que são de outrem. A moral do Homem é, pois, independente do controlo e da repressão e sem ela, é fácil ceder.

Mesmo o homem justo, como Platão tenta demonstrar, precisa de regras, normas e controlos, para que não existam desvios quanto à sua conduta.

Para um Maçon, o controlo é a sua consciência. Com ou sem anel, visível ou invisível, um Maçon deve atuar sempre de acordo com a sua consciência pois, ainda que uma qualquer falha não seja percetível ou apercebida, a sua consciência sempre tenderá a condenar uma qualquer atitude contrária à ética ou à moral.

É por isso que acredito que, a Filosofia Moral[5], é superior e deve guiar-nos no nosso caminho e percurso maçónicos. A condenação quanto aos nossos desvios dá-se, primeiramente, no nosso interior, na nossa consciência, no nosso mais íntimo e profundo interior e, claro, no nosso pensamento.

Só assim podemos ser um instrumento de mudança na sociedade; mudando-nos a nós próprios. Talvez um dia, quando um tal anel nos fosse concedido, pudéssemos conscientemente saber abdicar das regalias que ele encerra; o soubéssemos pôr de lado ou, então, usá-lo para o bem comum. Ou talvez, o melhor seria nem sequer sermos confrontados com essa possibilidade…  

Como ainda há dias um dos mais famosos rappers portugueses disse: “Eu queria mudar o mundo, mas não visitada a minha avó. Queria mudar o mundo e não fazia a cama.”[6]


[1] As interpretações alegóricas quanto às obras de Platão, interpretados como alegorias sustentadas, foram a corrente dominante até ao século XVIII e marcam também as interpretações (hermenêutica) realizadas sobre as Sagradas Escrituras pelas principais religiões monoteístas e influenciaram poetas como Dante ou Shakespeare. São os chamados neoplatónicos.

[2] Iniciado com a obra de J. TATE, “Plato and Allegorical Interpretation”, em Classical Quarterly, volume 23, 1929. N.º 3-4, p. 142.

[3] Temos até a linha de análise literalista, realizadas por Lutero e Brucker.

[4] PLATÃO, “A República”, Livro II, 9.ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, páginas 56 e 57. Tradução e Notas de Maria helena da Rocha Pereira. Há uma nota no Livro relativamente a esta alegoria que é importante para contextualização e que aqui se reproduz: “Giges foi rei da Lídia, c. 687-651 a.C., depois de ter assassinado o monarca anterior, Candaules, e de ter desposado a viúva deste. As circunstâncias romanescas da história foram narradas por Heródoto (I. 8-12) e serviram também de tema a uma tragédia, de que se recuperou num papiro um fragmento de 16 versos, mas que não se sabe datar. A parte relativa ao anel é exclusiva de Platão.

[5] Para mais informações, sugere-se https://www.etica.eco.br/moral-etica-filosofia-moral, consultado em 11/03/2023 e JAMES RACHELS, “Elementos de Filosofia Moral”, Gradiva, 2004 (disponível para consulta na Biblioteca Nacional).

[6] Citação de VALETE, no podcast da BLITZ “Posto Emissor”, 7:34m, disponível em https://omny.fm/shows/expresso-blitz-posto-emissor/valete-dos-20-anos-de-hip-hop-destrui-o-do-mito-do

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